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28/03/2026Banco de Brasília enfrenta risco concreto de ser vendido ou liquidado caso não haja aporte do Distrito Federal; governo do DF diz agir para superar crise; banco estatal não se manifestou
Por Alvaro Gribel e Daniel Weterman
27/03/2026 | 05h30
Atualização: 27/03/2026 | 08h15
BRASÍLIA — Um ano após tentar comprar o Banco Master, no dia 28 de março de 2025, o Banco de Brasília (BRB) luta pela própria sobrevivência. Se antes a estratégia era expandir nacionalmente, agora o banco estatal se vê diante do risco concreto de ser vendido ou liquidado, caso não seja socorrido pelo governo do Distrito Federal — que precisa aportar recursos para cobrir o rombo deixado pelas negociações com o banqueiro Daniel Vorcaro.
O BRB passa por uma crise de confiança por ter comprado R$ 12,2 bilhões em carteiras de créditos do Master, que depois o Banco Central identificou que não tinham lastro, ou seja, eram podres.
Isso abriu um rombo em seu balanço e deixou o patrimônio da instituição pública no negativo. Mas o número exato do problema permanece desconhecido, já que o BRB não divulga os seus resultados desde o segundo trimestre do ano passado. A estimativa, porém, é de que seja de ao menos R$ 8 bilhões. Procurado, o banco não se manifestou.
A estratégia do novo presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, é só divulgar o tamanho exato do problema quando o governo do DF viabilizar a operação para capitalizar o banco. Assim, as duas informações seriam publicadas ao mesmo tempo: o tamanho do prejuízo, mas o seu aporte correspondente.
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O Banco de Brasília cancelou uma assembleia de acionistas que discutiria o plano de socorro no último dia 18. E também não deve divulgar o balanço financeiro de 2025, pois pediu ao Banco Central um adiamento do prazo.
O banco enfrenta o impasse em meio ao calendário eleitoral e à possível delação do banqueiro Daniel Vorcaro. O governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), anunciou que deixará o cargo na próxima segunda-feira, 30, para concorrer ao Senado em outubro. O emedebista enfrenta um desgaste político com o caso.
Além de ter patrocinado a tentativa de compra do Master, o escritório de advocacia do governador vendeu pelo menos R$ 85 milhões em honorários para fundos ligados a Daniel Vorcaro e à Reag, também investigada no escândalo.
Vorcaro começou a negociar uma delação premiada que, se concretizada, pode trazer novos elementos sobre quem participou das operações fraudulentas.
Governo diz agir para superar crise, mas não informa andamento das medidas
O governo do Distrito Federal afirmou ao Estadão estar agindo com “rigor, responsabilidade e celeridade” para superar a crise decorrente do Caso Master, mas não detalhou o que será feito nem informou sobre o estágio das medidas.
As decisões da nova gestão do BRB buscam preservar os interesses dos clientes, correntistas e do controlador, “que é o povo do Distrito Federal”, disse a administração.
“O GDF confirma que vem atuando na condução de proposições técnicas e transparentes junto ao Banco (de Brasília). É importante ressaltar que todas as providências determinadas pelo Banco Central estão sendo rigorosamente cumpridas. Isso comprova que o controle e a governança estão sendo reestabelecidos.”
Em entrevista coletiva nesta quinta-feira, 26, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, elogiou a nova gestão do Banco de Brasília, mas enfatizou que o problema só será resolvido com o aporte do governo do DF.
“Tenho assistido o empenho da gestão atual do BRB para tentar equacionar uma solução, que é uma questão que está menos na gestão efetivamente do BRB, porque é uma questão de patrimônio, é uma questão que envolve uma solução fornecida pelo acionista controlador”, afirmou Galípolo.
Ibaneis aprovou um projeto de lei para fazer um aporte no BRB com o uso de nove imóveis públicos do Distrito Federal que podem ser vendidos, usados como garantia em um empréstimo ou estruturados em um fundo imobiliário.
A lei aprovada foi judicializada. Diante dos obstáculos para colocar o fundo em pé, o plano A do Banco de Brasília virou buscar um empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e a outras instituições financeiras —solução que ainda não se concretizou.
Relação Master e BRB começou em 2024
A relação do BRB com o Master começou em maio de 2024, com um aumento de capital por parte do banco público e que acabou sendo acompanhado por fundos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master.
Assim, Vorcaro se tornou acionista do BRB, ao mesmo tempo que reforçava a estrutura de capital do Banco de Brasília, segundo as investigações.
Com esse reforço, o BRB passou a comprar carteiras de crédito justamente do Master, a partir de julho, segundo relatório enviado pelo Banco Central ao Tribunal de Contas da União (TCU). Até dezembro daquele ano, as estimativas são de que R$ 4,5 bilhões de carteiras próprias do Master tenham sido cedidas ao BRB.
A partir de janeiro de 2025, há uma mudança na operação. O Master passa a vender carteiras originadas por uma empresa chamada Tirreno, que suspeita pela Polícia Federal de ser de fachada. Em poucos meses, o BRB compra mais R$ 12,2 bilhões em créditos do Master, que depois a fiscalização do Banco Central identificou que eram falsas.
Daniel Vorcaro e Paulo Henrique entram em contradição sobre carteira de créditos vendida pelo Master
Sigilo dos depoimentos foi levantado pelo ministro Dias Toffoli.
O BRB fez uma oferta para comprar 58% do capital total do Master em 28 de março de 2025, em uma operação estimada em R$ 2 bilhões. O Banco Central, contudo, reprovou o negócio em setembro, depois de se debruçar sobre o balanço dos dois bancos e encontrar indícios de crimes financeiros, com a descoberta das carteiras podres vendidas ao BRB pelo Master.
Além disso, foi identificado risco de que o BRB pudesse ser obrigado a responder por passivos de mais de R$ 50 bilhões do Master, caso o negócio fosse concluído. “Isso significa que o BRB, ao adquirir o Banco Master, poderia ser posteriormente acionado judicialmente para responder por passivos superiores a R$ 50 bilhões de entidades excluídas da transação”, diz relatório do TCU sobre o trabalho do BC.
O governo do Distrito Federal insistiu na negociação e, como revelou o Estadão, recorreu três vezes ao TCU na tentativa de pressionar o Banco Central a aprovar a compra do Master pelo BRB e reverter a decisão que barrou a negociação.
Agora, a própria gestão Ibaneis diz que há risco de liquidação ou intervenção federal no Banco de Brasília se não houver o aporte. O Master foi liquidado em novembro, quando Vorcaro foi preso pela primeira vez. O banqueiro voltou ser preso no último dia 4 de março e começou a negociar uma delação premiada.
Venda do Master para o BRB era socorro contábil, financeiro e político, diz perito
Segundo o auditor e perito contábil Marcelo Alcides Gomes, as demonstrações financeiras dos dois bancos já indicavam problemas quando o negócio foi fechado, no início de 2025. Os balanços do ano anterior trouxeram achados de auditoria que demonstravam ressalvas nos fundos comprados pelo BRB e pelo Master.
“Os auditores deixaram aqueles ‘ovos de Páscoa’ que só na linguagem do auditor para entender o que estava acontecendo. Dava para perceber que alguma coisa estava com problema na avaliação dos fundos que o Master e o BRB adquiriram”, afirma o especialista. Para ele, o Master tentou se salvar por meio do Banco de Brasília. “Era um socorro contábil, financeiro e político.”
Agora, é inevitável que o BRB receba um aporte do controlador para continuar funcionando. Mas o impasse está, primeiro, em descobrir o tamanho do rombo e identificar os responsáveis.
“Enquanto houver a suspeita de fraude, é preciso fazer uma investigação interna para apurar se houve fraude, quem são os responsáveis e saber o tamanho da fraude para fazer o ajuste no balanço. Até lá, o auditor não assina. Não é só o tamanho da fraude, é apurar quem são os responsáveis.”
