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16/09/2026Bolha de calor com sensores foi usada para conter a praga; Igreja do Calvário completou 100 anos em janeiro
11/10/2026 | 05h30
Atualização: 12/10/2026 | 22h09Notícia de presente
Uma técnica inédita com aplicação de uma bolha de calor evitou que cupins ocultos destruíssem a cúpula de 100 anos da Igreja do Calvário, marco religioso e referência urbanística de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Com sua fachada principal na Rua Cardeal Arcoverde e as escadarias voltadas para a Praça Benedito Calixto, o templo foi inaugurado há 100 anos, em janeiro de 1926. Os cupins de madeira infestaram as ripas estruturais embutidas na argamassa que sustenta a cúpula e não podiam ser combatidos com o tratamento convencional.
Após diagnóstico do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) apontar degradação avançada e risco de desabamento, os padres recorreram ao restaurador Stephan Schäfer, alemão radicado no Brasil, especialista na restauração de patrimônio histórico, em busca de uma solução.
Depois de vários estudos, o restaurador optou por utilizar uma técnica até então inédita no País – aplicação térmica com bolsão ou bolha de ar quente – para eliminar a praga. A ação foi bem-sucedida e, segundo ele, a técnica já pode ser usada em outras construções históricas com o mesmo problema.
Um marco de fé
A Igreja do Calvário integra a Paróquia São Paulo da Cruz, em Pinheiros, e foi construída em estilo basilical romano. O altar-mor, em estilo romano barroco, foi projetado pelo arquiteto Benedito Calixto de Jesus Neto – neto do renomado pintor Benedito Calixto que dá nome à praça – e sagrado pelo bispo dom José Gaspar, em julho de 1940. Para os católicos, ela é um marco de fé por ser a base dos padres passionistas, congregação religiosa conhecida pela devoção à Paixão de Cristo.
Funcionários da congregação detectaram a presença de cupins na estrutura de madeira existente na parte externa da cúpula. A resistência ao controle sugeriu que havia cupins de madeira seca no interior da argamassa, o que foi confirmado pelo diagnóstico do IPT, que fez sondagens através de pequenos furos abertos na cúpula.
A inacessibilidade aos cupins, ocultos na estrutura interna da cúpula, era o principal desafio. A estrutura das ripas num sistema cruzado dentro da argamassa propiciava aos insetos “avenidas” para transitar e o alimento, numa forma oculta para quem anal
A investigação feita pelo IPT revelou que o sistema construtivo da cúpula — uma parte estrutural feita com ripas de madeira dentro da argamassa — formava um ambiente fechado onde a infestação se espalhou sem possibilidade de aplicação de inseticidas químicos ou qualquer outro método eficaz de combate. Além disso, qualquer tentativa de saturação química da argamassa comprometeria o mural interno da igreja e traria alto risco de incêndio.
Diante do risco de colapso da cúpula, a Congregação dos Religiosos Passionistas contratou a PreservaTech, empresa de Stephan Schäfer, para recuperar a estrutura da cúpula do altar-mor da igreja infestada de cupins. Pesquisador de arte, o alemão cuidou de desinfestações na Biblioteca Mário de Andrade (SP), na Fundação Casa Rui Barbosa (RJ) e restauros no Santuário Nacional de Aparecida e na Catedral Metropolitana de Campinas, ambos no interior paulista. Também atuou na recuperação de acervos de instituições públicas do Rio Grande do Sul submersas em prédios históricos pela grande enchente de 2024.
Bolsão de calor
A alternativa aplicada por Schäfer e sua equipe foi a adoção de uma técnica de descupinização térmica in loco, até então inédita no Brasil. Como se provou na prática, a aplicação térmica faz o controle biológico sem agentes tóxicos e proporciona o controle de umidade durante todo o tratamento. “A argamassa tem uma largura de 7 a 8 centímetros e é sustentada por uma estrutura de ripas internas, que ficam invisíveis. Foi nelas que os cupins se alojaram, usando o ripamento como via de trânsito e de alimentação ao mesmo tempo”, explica.
Antes da intervenção do especialista, os padres tinham usado os serviços de empresas de descupinização, sem sucesso. Segundo Schäfer, uma das saídas seria encharcar a argamassa com inseticida químico, mas havia risco de incêndio e de afetar a pintura sacra da parte visível da cúpula, que mostra a ressurreição de Cristo. A opção foi empregar uma tecnologia desenvolvida na Alemanha que usa temperatura controlada para eliminar a praga.
Só havia um problema, segundo Schäfer: a técnica foi desenvolvida para ser aplicada em ambientes fixos, como estufas e salas hermeticamente fechadas. “Foi então que desenvolvemos o modelo móvel, com equipamentos compactos, pois teriam de ser levados a 12 metros de altura, onde fica a parte externa da cúpula.”
Para acessar a área comprometida pelo lado de fora, foi necessário erguer um andaime e aplicar um fechamento hermético com isolamento térmico por mantas e espuma de poliuretano logo acima da cúpula, criando um invólucro de contenção do ar quente. “Fizemos uma espécie de bolsão ou bolha para conter o ar quente sem deixar escapar o calor. E tudo com controle rigoroso de temperatura para evitar tanto a expansão quanto a retração da madeira, o que poderia danificar a estrutura”, relata.
O processo foi conduzido em três etapas: fechamento e vedação, instalação de dutos, sensores, aquecedores e equipamentos de controle digital e, por fim, o processo do tratamento térmico controlado com monitoramento contínuo em tempo real.
Segundo ele, a temperatura do ar no bolsão só pode chegar em 56°C e no interior da madeira é preciso atingir 52°C e manter essa temperatura alvo por 3 horas. “Porém no caso da cúpula mantivemos essa temperatura por dois dias, para ter certeza de ter atingido a eficácia total”, explicou.
O controle foi feito por via remota, com registro técnico de todo o procedimento, segundo Schäfer. “Desenvolvemos um software do zero que nos permitiu controlar a temperatura no interior da argamassa pelo computador e pelo celular. Foi um trabalho de seis anos nesse software”, diz.
A comprovação da eficácia da aplicação é realizada com corpos de prova – caixas de madeira com cupins vivos disponibilizadas pelo IPT e o uso da mesma tecnologia de termografia usada na cúpula. “Os cupins que estavam vivos foram 100% eliminados e salvamos a cúpula. Se a infestação continuasse por mais alguns anos, a cúpula teria se desmanchado, com alto risco de ruir”, diz Schäfer.
O padre Francisco das Chagas da Silva Marques, pároco da Igreja do Calvário, diz que o trabalho de restauração garantiu a preservação de um patrimônio cultural importante. “Já não vemos mais pó, nem nos parece haver algum foco de cupim”, diz. “Estamos comemorando o centenário da igreja que faz parte da história do bairro e da cidade, tanto que no dia 18 vamos lançar um livro falando sobre os 100 anos da Igreja do Calvário e das pessoas que fizeram essa história.”
O responsável pela equipe de manutenção da Igreja do Calvário, Sérgio Ribeiro Santana, de 51 anos, lembra que a restauração foi um trabalho meticuloso. “Tinha previsão de ser feita em um mês, mas levou mais de cinco meses. É que os cupins estavam dentro do estuque, que é um tipo de forro muito antigo, feito de argamassa.”
A congregação avalia agora a possibilidade de usar a mesma técnica para descupinizar o órgão de tubos da igreja, instrumento musical de alta raridade. Construído dentro do convento por dois organeiros alemães, o órgão foi inaugurado em 1948 e dispõe de 2.321 tubos sonoros, três teclados e pedaleira para os baixos. Mais tarde foi acrescentado um novo jogo de flautas metálicas vindas da Itália e a antiga transmissão com fole foi substituída pela eletrônica. Os padres buscam recursos para restaurar o equipamento.
Chegada em 1911
A história dos religiosos Passionistas no Brasil começa em setembro de 1911, com a chegada ao litoral do Paraná de três padres vindos de Buenos Aires. Convidados a exercerem seu ministério na capital paulista, eles obtiveram a doação de uma área com 10 mil m² no alto de uma elevação, na Vila Cerqueira César, cercada de charcos e córregos. Em 1913, eles iniciaram a construção de uma capela e em 1923, foi iniciada a campanha de arrecadação de fundos para a construção da igreja atual – a nave principal ficou pronta em dois anos e foi inaugurada em janeiro de 1926.
A nave da igreja comporta 400 pessoas. O campanário, inaugurado em 1937, abriga um carrilhão com cinco sinos fundidos em bronze, com peso total de 3.500 quilos – o maior pesa sozinho 1.731 kg. Até 1981, quando passaram a ser acionados eletronicamente, eles eram mecânicos, ou seja, eram tocados na força do braço.
A Igreja do Calvário recebe diariamente cerca de 600 pessoas, chegando a 3 mil nos finais de semana. Além de missas e outras celebrações litúrgicas, desenvolve cerca de 40 atividades sociais e educativas que envolvem em torno de 400 paroquianos voluntários com a ajuda das religiosas passionistas do Colégio Santa Luzia e as franciscanas do Colégio Stella Maris.
Hoje, os religiosos Passionistas são cerca de 2.500 e estão presentes em 56 países. No Brasil, a congregação está em dez estados e conta com 150 religiosos, mantendo 10 seminários de formação de novos padres.
