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26/08/2026Times Brasil| Justiça aceita pedido de recuperação judicial do Grupo Gennius, dono do Habib’s e Ragazzo
27/08/2026Negócio que chegou a faturar R$ 3 bilhões e operar 600 lojas enfrenta endividamento após mudanças no consumo e alta dos juros
Por quase quatro décadas, o Habib’s construiu uma das histórias de maior expansão do setor de fast food no Brasil. Criada em São Paulo em 1988, a rede apostou em preços baixos e, a partir de 1992, no sistema de franquias para acelerar seu crescimento pelo país. O modelo funcionou: por volta de 2010, o grupo chegou a faturar cerca de 3 bilhões de reais por ano e a operar 600 lojas. Hoje, a história é outra. O Grupo Gennius, controlador do Habib’s e do Ragazzo, entrou em recuperação judicial diante de uma dívida de 265 milhões de reais. O pedido de RJ foi aceito na segunda-feira, 24, pelo juiz Jomar Juarez Amorim, da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. A medida envolve 178 empresas ligadas ao conglomerado, além dos sócios Alberto Saraiva e Belchior Saraiva.
O processo de RJ do Gennius inclui dez franqueadoras e holdings de participação, 17 empresas de estrutura operacional, seis unidades da churrascaria Tendall, 119 lojas do Habib’s e 26 do Ragazzo. Atualmente, segundo informações divulgadas pela própria companhia, o grupo reúne mais de 300 restaurantes espalhados por cerca de 90 cidades brasileiras. A recuperação judicial não significa, neste momento, o fechamento das redes. Em nota enviada a VEJA NEGÓCIOS, o Habib’s afirmou que a decisão foi tomada “com o objetivo de preservar a sustentabilidade (financeira) e a evolução do negócio no longo prazo”. A empresa também declarou que “As operações do Grupo seguem funcionando normalmente”.
Para José Carlos de Jesus Gonçalves, sócio do Duarte Tonetti Advogados e especialista em Reestruturação e Recuperação Judicial, a crise não surgiu de maneira repentina. “A recuperação judicial nunca é um fato isolado e repentino. Trata-se de uma sequência de fatos ligados à gestão administrativa e financeira de qualquer empresa”, diz.
Apesar da posição que ocupou no segmento de fast food, o Habib’s não conseguiu preservar a sua escala. Nos últimos anos, a empresa passou a enfrentar dificuldades financeiras e reduziu sua presença física. Parte do problema está relacionada justamente ao modelo de restaurante que ajudou a rede a se tornar conhecida: grandes lojas, com estacionamento, parquinho infantil e drive-thru. Esse formato perdeu força à medida que os hábitos de consumo mudaram. A expansão dos aplicativos de delivery reduziu a necessidade de o consumidor se deslocar até um restaurante para fazer uma refeição. Segundo pesquisa recente da fintech Klavi, metade dos brasileiros utiliza aplicativos de delivery, uma tecnologia que praticamente não existia há 15 anos, durante o auge do Habib’s.
O avanço do delivery não significa apenas uma mudança no local onde o consumidor faz sua refeição. Ele também pode alterar a rentabilidade da operação. Especialistas no setor apontam que, quando o pedido é feito por entrega, não há necessariamente o consumo de bebidas que ocorreria se o cliente estivesse no restaurante. Dessa forma, a migração para o delivery pode afetar diretamente o faturamento das lojas físicas.
As gigantes do varejo que quebraram
Ao mesmo tempo, o McDonald’s — fast food com o maior número de lojas do Brasil — conseguiu ampliar sua presença justamente por combinar diferentes canais prezando por lucratividade em cada um deles. Segundo pesquisa da Kantar divulgada em julho de 2025, a rede mantém forte atuação nas lojas físicas, nas vendas online e no drive-thru, com crescimento em todas essas frentes. A estratégia responde a um mercado no qual os consumidores passaram a ter diferentes caminhos para comprar os mesmos produtos. Para dimensionar o tamanho que a rede alcançou, o McDonald’s possui mais de 1.200 unidades no Brasil.
Os números da Kantar mostram que o Habib’s ainda preserva uma posição relevante, apesar da crise. Pela métrica CRP, que considera quantos lares consomem uma marca e com que frequência, o McDonald’s somava 76,4 milhões de pontos de contato com consumidores. O Burger King vinha em seguida, com 68,5 milhões; Pizza Hut, com 26,3 milhões; Habib’s, com 19,8 milhões; e Giraffas, com 16,5 milhões. O Ragazzo aparecia na 11ª posição, com 5,4 milhões de pontos de contato. Os dados ajudam a mostrar que a recuperação judicial não é consequência de uma marca que simplesmente deixou de ser conhecida pelos consumidores. O desafio está na capacidade de transformar essa presença em uma operação financeiramente sustentável.
O modelo comercial do Habib’s também teria agravado o problema. A estratégia de preços baixos foi fundamental para popularizar a rede, mas tornou-se mais difícil de sustentar quando os custos aumentaram. “A manutenção da política de preços baixos sofreu abalo com o aumento dos custos diretos e indiretos, gerando grave crise no caixa, o que certamente contribuiu para o endividamento”, diz o sócio do Duarte Tonetti Advogados. O especialista lembra que a alta dos juros e da inflação contribuem para um ambiente de negócios mais custoso e desafiador. “Ao que tudo indica, demorou-se muito para a adoção de medidas amargas, contribuindo para o agravamento da crise instalada há muito, culminando com o pedido de recuperação judicial”, diz Gonçalves.
Renato Scardoa, especialista em Reestruturação de Empresas e doutor em Direito Comercial pela USP, também vê uma combinação de fatores por trás da crise. Para ele, três choques diferentes atingiram o modelo de negócios da empresa em sequência: a pandemia da cobvid-19, a expansão do delivery e o aumento dos juros. “O que aconteceu com o Habib’s é o retrato de três crises que se sobrepuseram”, diz. Outro problema, segundo o especialista, está na estrutura financeira do conglomerado. O grupo possui mais de 265 milhões de reais em dívidas, distribuídas por 178 empresas relacionadas entre si por avais e garantias cruzadas. Isso significa que dificuldades financeiras de uma empresa podem afetar as demais integrantes do grupo. Com a elevação dos juros, o serviço da dívida passa a consumir uma parcela cada vez maior do caixa.
O próximo passo da companhia será a apresentação de um plano de reestruturação. O Grupo Gennius tem 60 dias para apresentar a proposta aos credores. Se não cumprir o prazo, poderá entrar em processo de falência. A KPMG foi designada para atuar como administradora judicial.
